Alexandre Aragão de Albuquerque
Finalmente havia chegado o grande dia. O jogador de basquete estava ansioso para disputar a final estadual do campeonato estudantil, a primeira em sua breve e vitoriosa carreira. O basquetebol aparecera em sua vida como uma das tábuas de salvação depois da morte prematura de seu pai num acidente automobilístico, dois anos antes. Um desastre que afetou em cheio todo o seu núcleo familiar. Ele não entendia o porquê de crianças ficarem órfãs.
Muitas pessoas atribuíram àquele desastre na vida de sua família a uma “manifestação da vontade de Deus”, e como tal deveria ser aceita sem desacordos. Isso o fazia meditar sobre em que base expressavam tanta certeza se nenhuma delas jamais havia conversado frente a frente com Deus para saber diretamente dele se de fato era aquela a sua vontade. Cogitava: “Quem lhes havia revelado isso? E por que se atreviam a tanto? Afinal, será que Deus prazer sentiria em causar tão bruscamente terrível sofrimento da viuvez a uma jovem mulher apaixonada pelo esposo, juntamente com a orfandade de suas cinco crianças?”.
O jogador de basquete pouco sabia sobre o agir de Deus. Recusava-se terminantemente a aceitar que fosse esse o sentido da sua ação: provocar sofrimento aos humanos. A morte do seu pai o havia conduzido a um lugar nunca visitado, antes mesmo da chegada à adolescência, aos dez anos de idade. Um vazio preenchido por muitas lágrimas e incertezas. Nunca mais teria em sua frente o semblante do pai a estampar aquele largo e sincero sorriso; nunca mais as longas conversas sobre a vida e o seu habitual, as deliciosas brincadeiras... Forte marca daquele momento trágico deu-se quando, ainda chorando ao lado pai imóvel e gélido no caixão, veio em seu esteio uma bela mulher desconhecida, toda de preto, gratuitamente achegando-se e sussurrando-lhe ao seu ouvido palavras encorajadoras para seguir adiante. Um bálsamo calmante na ferida aberta. E na hora do adeus final, comoveu-se ao ver homens maduros em pranto pela perda do amigo, depositando-o para sempre no seio da terra.
Contava apenas 12 anos de idade. Na véspera da grande final, recolhera-se cedo para erguer-se bem disposto para a disputa do dia seguinte. Mas a fantasia lhe dificultava abandonar o estado de vigília. Pensou no seu pai: será que lá do céu ele poderia acompanhar o jogo? Será que lá do céu ele teria condições de torcer e vibrar com a sua vitória? Também pensou na Menina: ah! aquele primeiro beijo... Será que ela iria assistir à peleja? O encontro com a Menina o havia levado a deslindar outras paragens com paisagens inusitadas, preenchidas pela fantasia, pela doçura, pelo fogo interior alimentado no encontro de olhares e carícias entre duas púberes pessoas que se desejavam livremente um ao outro. Assim, o jogador de basquete adormeceu embalado pela saudade e pela paixão.
Acordou bem cedinho, juntinho com o Sol. Fez sua oração matinal e partiu para o ginásio, acompanhado pela mãe e por um dos irmãos. Quando lá chegou, assustou-se com a quantidade de pessoas presentes no ginásio desportivo. Todos os lugares haviam sido ocupados, fazendo daquela final um acontecimento único na cidade. Seria uma disputa difícil, as duas esquadras haviam se classificado invictas em suas chaves. No vestiário recebeu, com sua equipe, um uniforme novo nas cores azul, branco e preto, confeccionado especialmente para aquela ocasião. Ficou emocionado, imaginando quem teria lavorado com tanto esmero aquela bela vestimenta.
Na prelação preparatória, o treinador disse-lhes que havia chegado o momento de eles confirmarem o esforço de dois anos de trabalho e dedicação. Deveriam, portanto, colocar em prática aquilo que aprenderam, com tranquilidade e determinação, num profundo respeito pelos jogadores adversários. Além da aplicação técnica e tática, já que seria um jogo difícil pelo excelente nível das duas equipes, eles deveriam jogar com amor e com garra, isso seria capaz de fazer a diferença nas situações limites da partida. Durante o aquecimento em quadra, o jogador de basquete procurou, numa última esperança, com o olhar, localizar a Menina. Mas ela não estava ali.
A partida transcorreu disputada ponto a ponto. Foi preciso muita aplicação, precisão e paciência, integrando todos os conhecimentos e características dos jogadores, por meio de um diálogo tático e atento ao que lhes possibilitasse construir e aproveitar as melhores oportunidades de pontuação. Tratava-se de trabalhar em equipe. Ao final, seu time sagrou-se campeão. Quanta alegria! Festa!
À noite, já em seu quarto, com o sonho conquistado, fruto de dedicação pessoal e do trabalho de todo o grupo, lembrou-se do seu pai. Em sua saudade, no íntimo do coração, agradeceu-lhe pelo dom da vida, pelos generosos diálogos, pela disponibilidade em havê-lo acompanhado em seu desabrochar humano. Lembrou-se também da Menina, do quanto aquele primeiro beijo havia significado para ele, rasgando seu coração para a beleza do sentimento de poder abrir-se a alguém. Assim ele adormeceu, embalado pela alegria, pela saudade e pela paixão.
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