Alexandre Aragão de Albuquerque
Na noite do dia 24 de abril de 2023, no Palácio Nacional de Queluz, em Sintra, num momento de singela luminosidade do espírito humano, o escritor, cantor e compositor brasileiro, Chico Buarque de Hollanda, recebeu o maior prêmio da língua Portuguesa, o Prêmio Camões. Depois de quatro anos de espera, em virtude de o néscio Bolsonaro haver-se recusado a assinar o diploma conferido ao gênio da cultura brasileira. Mas o final da longa espera foi celebrada na noite ontem com a refinada elegância intelectual própria do agraciado, expressa em seu discurso.
Chico começou demarcando seu pensamento em torno da importância da figura do seu Pai na formação da sua experiência humana. Um pai presente, complacente e exigente, que lhe indicou caminhos para sua caminhada pelo conhecimento, para quem ele nutria não apenas admiração, como confiança. Um pai que lhe propiciou ir além de si mesmo, transcender, para perceber e sentir em sua pele a existência de outros, abrindo-lhe o portal do sentir e do pensar político. Entretanto é importante compreender, nesse discurso, a escolha da figura paterna, por parte de Chico, como gênio literário que é, para além de sua trajetória pessoal. Há que pensar no pai como fonte originária da qual se procede. No caso brasileiro, uma de nossas procedências é a portuguesa, com a qual Chico dialogava de forma respeitosa e brilhante naquele tempo-lugar, a partir do seu estar no mundo. Pai e Filho em diálogos dinâmicos e respeitosos.
Essa sensibilidade humana e política permitiu-lhe um refinado senso autocrítico capaz de perceber-se como portador em suas veias abertas, simultaneamente, do sangue do açoitado e do açoitador. Somente dessa compreensão fundamental de si como sujeito dual, individual e coletivo, é possível realizar a catarse transplantadoras das dores e das injustiças estruturais de nossa história, para pensar e construir novos mundos reparadores, que estejam muito além das Inquisições. Tal denúncia foi feita por muitos nobres escritores, como João Cabral de Melo Neto, o grande poeta pernambucano, o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões.
Inquisição que não findou, mas que ganhou roupa nova, por exemplo, pela ação do neofascismo brasileiro, durante os últimos quatro anos, num tempo “que parecia andar pra trás”. Por isso Chico afirmou receber esse prêmio “menos como honraria pessoal e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo”.
Somos o país de Pelé, de Lula, de João e de Chico. Obrigado a todos e a cada um!
PS: Hoje também ganhei de presente uma gravata novinha de minha esposa.
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