quarta-feira, 24 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Capítulo final)

 Alexandre Aragão de Albuquerque

 

Capítulo 07

 

Já em seu quarto, antes de dormir, Helena meditou: “por que será que Zinguindum gosta tanto de viajar?”. Enquanto pensava, adormeceu e acabou sonhando imagens fantásticas.

No sonho, Helena fez sua estreia no comando da espaçonave Quanta. Viajou na velocidade da luz até a nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, no estado de Minas Gerais. Ficou impressionada como um simples olho d’água pode transformar-se num rio imenso e extenso. Firmou-se ali por horas contemplando aquela bela paisagem, ladeada por Quanta. De repente, escutou a voz de Zinguindum que lhe dizia: “Sabe, Helena, a viagem nunca acaba, estamos sempre viajando. O fim de uma viagem é o começo de outra. Um olho d’água pode se transformar em um rio, um rio poderá ser olho d’água de quê? Contemplar as águas de um rio ao nascer do sol será o mesmo que apreciá-las no tramonto? Viajar é vislumbrar as pessoas, as geografias, as histórias, os fatos, por ângulos diferentes, para tentarmos entender um pouco mais os segredos da vida, para vive-la cada vez melhor”.

Esse foi um dos sonhos mais bonitos que Helena já teve. Acordou em paz, um pouco mais tarde porque era feriado.  Depois do café, seu papai chegou-lhe com uma surpresa. Um pacote colorido. O que seria aquilo?

- Helena, ontem chegou essa encomenda que o vovô Dedé enviou para você juntamente com esse cartãozinho.

- Papai! Será que é a pedra de Marte?

Pegou depressa o cartão e começou a ler:

“Querida Helena, estou lhe enviando a pedra de Marte que recebi de Zinguindum. Ele me disse que fizesse um bom uso dela. Com meu grande amor por você, Vovô Dedé”.




Ela estava emocionada! Finalmente!

Com calma foi abrindo o pacotinho colorido. Eis que lá estava, uma pedrinha pequenina, colorida como as abelhas, como as acácias e como as sakuras de Marte descritas por Zinguindum. Possuía um brilho encantador, causando uma estranha impressão de que queria conversar com Helena.

Qual seria o segredo da pedra de Marte? Seria o caso de perguntar a Zinguindum ou seria melhor tentar descobrir por conta própria? Enquanto decidia, seu papai chegou com o celular:

- É Zinguidum, para você.

- Oba, que bom! Oi, Zinguindum! Recebi a pedra de Marte. Ela é lindaaaaa! Obrigadaaaaaa!

- Que bom que você gostou, Helena. É uma pedra muito resistente, como o diamante. Mas também é muito leve, cem vezes mais leve que o isopor. Já pensou? E ainda é super maleável, parecida com o mercúrio, se ajusta rapidamente às mudanças. Essas são algumas qualidades que ela desenvolve, de acordo com as circunstâncias onde está colocada. Sei que você vai descobrir tantas outras qualidades que a pedra de Marte carrega consigo.

- Sabe, Zinguindum, quando a coloquei em minha mão tive a sensação de que ela queria conversar comigo.

- Foi mesmo, Helena?

- Foi.

- E o que você fez?

- Fiquei sem jeito. Eu nunca conversei com uma pedra.

- Sempre há uma primeira vez, Helena. Lembre-se de que não é uma pedra qualquer, é uma pedra de Marte!

- Você acha que ela conversaria comigo?

- Tente. A pedra de Marte guarda imensas surpresas. Se você conseguir tocar-lhe em seu centro vital, ela lhe revela muito dos seus segredos, de sua beleza, de sua bondade, de sua ciência.

- E como se faz para tocar-lhe o seu centro vital?

- Com simplicidade, Helena. E com paciência, honestidade e amizade para com ela. Para mim, é uma companheira de viagem, ajuda-me a brincar brincadeiras novas e antigas, a enfrentar dificuldades, a encarar com tranquilidade as derrotas e, principalmente, a recomeçar com novo ânimo a cada dia. Se eu pudesse, Helena, eu daria uma pedra de Marte para todas as crianças do mundo. Mas uma coisa que eu aprendi é que as crianças que têm sua pedra de Marte podem fazer com que outras crianças possam conhecê-la também.




- Como, Zinguindum?

- Com a vida. Aprendi que a pedra de Marte nos ajuda a viver cada dia melhor. Como um olho d’água que se transforma num Rio São Francisco que abastece as pessoas com a pureza de sua água cristalina e a força de sua correnteza.

- Nossa, Zinguindum, então ela é muito preciosa!

- Com certeza, Helena. É uma pedra angular!

- O que é uma pedra angular, Zinguindum?

- Aquela que sustenta a estrutura de uma construção. Sem ela uma construção desaba. Ela é multicor porque cada cor tem sua fortaleza própria. É a comunhão dinâmica entre suas cores que faz da pedra de Marte ser tão especial.

- Eu cuidarei muito bem dela. Vou cuidar por toda a vida. Obrigada, Zinguindum!

- Isso, Helena!

- Ah, Ziguindum, eu gostaria de te contar um segredo maravilhoso.

- Conte-me. Eu adoro segredos.

- Nossa família aumentou. Ganhei uma priminha nova!

- Verdade? Qual o seu nome?

- Flora!

 

 

FIM

(AGORA COMEÇA UMA NOVA VIAGEM)

 

terça-feira, 23 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Penúltimo capítulo)

Alexandre Aragão de Albuquerque

 

Capítulo 06

 

Durante o jantar, Helena comentou com o papai e a mamãe a conversa da tarde com Zinguindum.

- Olha, ele além de construir uma espaçonave quântica, também toca violão, sanfona e flauta. E faz um trabalho muito importante numa instituição que acolhe crianças com câncer. Ele dedica algumas manhãs para estar com elas. Tem também outro amigo que vai com ele fazer mágicas e contar estórias.

O papai de Helena escutou com muita atenção o relato da filha. E depois interveio:

- Helena, posso revelar um segredo?

- Um segredo? Claro, eu adoro segredos!

- Quando eu era mais jovem, também vivenciei uma experiência parecida lá em Fortaleza. Com alguns amigos e amigas, nós íamos passar os sábados à tarde com crianças portadoras de câncer. Chamávamos de Sabadão.

- Verdade? Igual ao Zinguindum?

- Sim. Eram momentos muito fortes para mim porque procurávamos compartilhar um pouco do nosso tempo para conviver com aquelas crianças. Aquelas tardes sempre traziam um sentido a mais em minha caminhada de adolescente.

- Que legal, papai! Conta mais!

- Lembro que fiquei amigo de um garoto chamado Levi. Ele tinha 11 anos. Era época de Natal. Depois de um Sabadão muito divertido, eu senti o desejo de dar um presente só para ele, porque estava muito doentinho, muito pálido e fraco. Fui numa loja e comprei uma camisa bem bonita para ele. No sábado seguinte, cheguei mais cedo para poder presentear Levi com a camisa. Mas para surpresa minha, Helena, ele não estava mais lá, tinha partido da Terra e se transformado numa estrelinha. Eu chorei muito porque havia construído uma amizade de verdade com Levi. E hoje, toda vez que vejo estrelas no céu, fico imaginando qual estrela deve ser Levi.




- Sabe, papai, Zinguindum me ensinou uma canção bem bonita que ele canta para as crianças que ele acompanha. Quer escutar?

- Quero, Helena.

- É assim:

Quando terminou o meu dia

Fui fazer a minha oração

Senti uma grande alegria

Invadir o meu coração

Eu lavei os pratos

Engraxei sapatos

E varri a casa também

Escutei amigos

Visitei doentes

Reparti o meu pão com alguém

 

- Linda, Helena! É exatamente assim que eu me sentia quando estava naquelas tardes conversando com Levi. Quando a gente se coloca na disposição de repartir nosso pão, uma alegria muito especial invade o nosso coração.

- Hoje foi um dia muito legal, papai. Eu vou escrever para Lis dizendo tudo isso, do trabalho importante do Zinguindum e da sua experiência com Levi. E vou cantar para ela a nova canção que eu aprendi.

- Muito bem, Helena!

 

segunda-feira, 22 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Capítulo 05)

Alexandre Aragão de Albuquerque 


Capítulo 05

Helena estava muito feliz pela conversa mantida com Zinguindum. Tão feliz que, mais uma vez, quase se esqueceu de cuidar dos girassóis. Foi na cozinha, encheu os copinhos com água, começou a regar suas lindas mudas da plantinha do sol. À medida que regava, ela cantava:

Um girassol ilumina muita gente

Dois girassóis iluminam muito mais

Milhões de girassóis irradiando sua beleza

Quantas pessoas iluminarão pelos quintais?

 

Quando concluiu seu afazer, Helena resolveu escrever um email para sua prima.

- Lis, hoje conversei muito com Zinguindum e ele começou a me contar de sua viagem a Marte. Muito massa! Sabe, Lis, eu vou pedir ao papai e à mamãe para acompanhar Zinguindum na sua próxima viagem ao espaço. Vamos, Lis, você vai com a gente? Você pode levar sua tartaruguinha. E eu vou levar sementes de girassol para plantar lá em Marte para eles fazerem companhia às acácias e às cerejeiras coloridas de lá. Quem sabe nascem girassóis multicor? Amanhã ele vai me ligar novamente. Teve de desligar o telefone porque iria fazer algo muito importante. Estou muito curiosa para saber o que é. Um beijo, Lis.

Alguns minutos depois chegou a resposta de Lis:

- Nossa, Helena, Zinguindum viajou mesmo a Marte, não é? Eu também quero ir com você nessa viagem, mas não posso levar a tartaruguinha porque ela faz companhia para minha vovó. A mamãe disse que antes de eu ir para Marte, eu preciso arrumar o meu guarda-roupa e o meu material escolar. Tá certo, Helena? Quando eu conseguir me organizar, a mamãe me deixa ir para Marte com você e com o Zinguindum. Tchau, Helena!

Ao ler o email de Lis, Helena tomou um susto. Foi correndo para o quarto arrumar seu guarda-roupa e o seu material escolar. Afinal, se a mãe de Lis disse isso, podia ser que sua mamãe lhe dissesse o mesmo. Então ela precisava arrumar seu quarto e seu material escolar todos os dias para não correr o risco de ver sua viagem atravancada.

No dia seguinte, antes do almoço, a mamãe de Helena teve uma grata surpresa quando foi em seu quarto chama-la para almoçar:

- Nossa, o que aconteceu aqui? O quarto todo arrumado e o material escolar também? Que maravilha! Desse jeito, Helena, se o Zinguindum a convidar para viajar pelo espaço, eu vou acabar deixando-a ir. Parabéns!

Helena riu bastante, sem a mãe se aperceber. A sua decisão de cuidar melhor do seu quarto e de seus cadernos estava trazendo bons frutos. Era uma descoberta para ela: cuidar melhor das coisas e dos espaços onde se vive, faz bem. E Lis a ajudou bastante com aquela mensagem enviada.

Depois do almoço, pediu o celular do seu papai e sentou-se no sofá à espera do novo contato.

- Alô! É você, Zinguindum?

- Sim, Helena.

- Zinguindum, qual foi o trabalho importante que você fez ontem?

- Ontem?

- Sim. Você disse que ia desligar o telefone porque tinha um trabalho muito importante a fazer.

- Ah! Como você tem boa memória Helena. Eu vou te contar. Mas primeiro vamos fazer uma experiência. Eu vou pedir para você fechar os olhinhos e imaginar um imenso jardim repleto de flores, de plantinhas, de árvores. Ok? O que você está vendo, Helena?

- Eu estou vendo muitos girassóis, muitas acácias, muitas sakuras, muitas abelhas e muitas outras plantinhas. Um jardim muito grande e muito bonito.

- Isso! Um jardim com sua diversidade. Então, Helena, para mim, a vida é como um imenso jardim onde as pessoas são plantinhas especiais, cada uma com sua beleza e suas características.

- E o trabalho importante, Zinguindum?

- Além de viajar pelo espaço, Helena, outra atividade que eu gosto de realizar é tocar instrumentos musicais. Quando eu era pequenino, na sua idade, meu papai me deu de presente uma sanfona de oito baixos. Comecei a tocar aquela sanfoninha, achei-a muito bonita. Quando meu papai viu que eu me interessava, levou-me a uma escola de música para eu aprender melhor. E hoje, além de sanfona, eu também toco violão, flauta e bandolim.

- Nossa, você sabe fazer várias coisas!

- Algumas coisas, Helena. Eu penso que cada pessoa possui talentos, é só uma questão de seguir a luz que brilha dentro de si e se empenhar para deixar os talentos brotarem. Por exemplo, você possui um lindo talento de cuidar dos girassóis.

- Mas eu ainda não sei tocar flauta.

- Se você sentir esse desejo, peça a sua mamãe e ao seu papai para eles te levarem a uma escola de música.

- E o seu trabalho importante, Zinguindum?




- Bem, já faz algum tempo, durante algumas manhãs, eu participo de um trabalho solidário num local muito importante para mim. É uma casa que acolhe crianças do interior do meu estado, portadoras de câncer. Como suas famílias não têm recursos para hospedarem-se em hotéis, são acolhidas neste local durante o tratamento de seus filhos. Algumas pessoas, sabendo da existência dessa instituição, dedicam voluntariamente parte de seu tempo e seus talentos para ajudarem na recuperação da saúde das crianças. No meu caso, eu vou lá para tocar e cantar. Fazemos muitas brincadeiras e nos divertimos bastante. Então, ontem à tarde eu iria ensaiar algumas canções novas para poder apresenta-las bem para aquela garotada, por isso eu tive de desligar o telefone.

- Quando eu crescer, eu vou querer fazer um trabalho solidário igual ao seu, Zinguindum.

- Muito bem, Helena. A solidariedade é uma opção que fazemos em nossos voos aqui na Terra. Quando nos ajudamos mutuamente, a vida flutua melhor, como Quanta. O importante é começarmos nas pequenas ações do dia a dia. Ser solidário é um estilo de vida. Diante de cada pessoa podemos desenvolver nossa sensibilidade para buscar entender a melhor forma de nos relacionarmos com ela. Esse conhecimento mútuo nos faz mais humanos. Você sabe de onde vem a palavra humanos, Helena?

- Não. De onde, Zinguindum?

- Vem de húmus, significa “terra fértil”. Da mesma forma como você cuida dos girassóis, nós devemos cuidar do húmus que existe em nós, nos outros e entre nós. Esse cultivo pode fazer de nossa vida um jardim diversificado e muito bonito, igual àquele que você visualizou quando fechou seus olhinhos.

- Hoje você falou muita coisa valiosa. Agora eu vou desligar o telefone porque preciso fazer algo importante: cuidar dos meus girassóis. Amanhã a gente continua nossa conversa sobre Marte. Viu, Zinguindum?

- Viu, Helena.

O LEITO DOS RIOS

Alexandre Aragão de Albuquerque   Leito vem do latim, lectus ou lectum. Significa “cama”, “lugar de repouso”. Na hidrologia, cria-se uma abs...