Alexandre Aragão de Albuquerque
Capítulo 07
Já em seu quarto, antes de dormir, Helena meditou: “por que será que Zinguindum gosta tanto de viajar?”. Enquanto pensava, adormeceu e acabou sonhando imagens fantásticas.
No sonho, Helena fez sua estreia no comando da espaçonave Quanta. Viajou na velocidade da luz até a nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, no estado de Minas Gerais. Ficou impressionada como um simples olho d’água pode transformar-se num rio imenso e extenso. Firmou-se ali por horas contemplando aquela bela paisagem, ladeada por Quanta. De repente, escutou a voz de Zinguindum que lhe dizia: “Sabe, Helena, a viagem nunca acaba, estamos sempre viajando. O fim de uma viagem é o começo de outra. Um olho d’água pode se transformar em um rio, um rio poderá ser olho d’água de quê? Contemplar as águas de um rio ao nascer do sol será o mesmo que apreciá-las no tramonto? Viajar é vislumbrar as pessoas, as geografias, as histórias, os fatos, por ângulos diferentes, para tentarmos entender um pouco mais os segredos da vida, para vive-la cada vez melhor”.
Esse foi um dos sonhos mais bonitos que Helena já teve. Acordou em paz, um pouco mais tarde porque era feriado. Depois do café, seu papai chegou-lhe com uma surpresa. Um pacote colorido. O que seria aquilo?
- Helena, ontem chegou essa encomenda que o vovô Dedé enviou para você juntamente com esse cartãozinho.
- Papai! Será que é a pedra de Marte?
Pegou depressa o cartão e começou a ler:
“Querida Helena, estou lhe enviando a pedra de Marte que recebi de Zinguindum. Ele me disse que fizesse um bom uso dela. Com meu grande amor por você, Vovô Dedé”.
Ela estava emocionada! Finalmente!
Com calma foi abrindo o pacotinho colorido. Eis que lá estava, uma pedrinha pequenina, colorida como as abelhas, como as acácias e como as sakuras de Marte descritas por Zinguindum. Possuía um brilho encantador, causando uma estranha impressão de que queria conversar com Helena.
Qual seria o segredo da pedra de Marte? Seria o caso de perguntar a Zinguindum ou seria melhor tentar descobrir por conta própria? Enquanto decidia, seu papai chegou com o celular:
- É Zinguidum, para você.
- Oba, que bom! Oi, Zinguindum! Recebi a pedra de Marte. Ela é lindaaaaa! Obrigadaaaaaa!
- Que bom que você gostou, Helena. É uma pedra muito resistente, como o diamante. Mas também é muito leve, cem vezes mais leve que o isopor. Já pensou? E ainda é super maleável, parecida com o mercúrio, se ajusta rapidamente às mudanças. Essas são algumas qualidades que ela desenvolve, de acordo com as circunstâncias onde está colocada. Sei que você vai descobrir tantas outras qualidades que a pedra de Marte carrega consigo.
- Sabe, Zinguindum, quando a coloquei em minha mão tive a sensação de que ela queria conversar comigo.
- Foi mesmo, Helena?
- Foi.
- E o que você fez?
- Fiquei sem jeito. Eu nunca conversei com uma pedra.
- Sempre há uma primeira vez, Helena. Lembre-se de que não é uma pedra qualquer, é uma pedra de Marte!
- Você acha que ela conversaria comigo?
- Tente. A pedra de Marte guarda imensas surpresas. Se você conseguir tocar-lhe em seu centro vital, ela lhe revela muito dos seus segredos, de sua beleza, de sua bondade, de sua ciência.
- E como se faz para tocar-lhe o seu centro vital?
- Com simplicidade, Helena. E com paciência, honestidade e amizade para com ela. Para mim, é uma companheira de viagem, ajuda-me a brincar brincadeiras novas e antigas, a enfrentar dificuldades, a encarar com tranquilidade as derrotas e, principalmente, a recomeçar com novo ânimo a cada dia. Se eu pudesse, Helena, eu daria uma pedra de Marte para todas as crianças do mundo. Mas uma coisa que eu aprendi é que as crianças que têm sua pedra de Marte podem fazer com que outras crianças possam conhecê-la também.
- Como, Zinguindum?
- Com a vida. Aprendi que a pedra de Marte nos ajuda a viver cada dia melhor. Como um olho d’água que se transforma num Rio São Francisco que abastece as pessoas com a pureza de sua água cristalina e a força de sua correnteza.
- Nossa, Zinguindum, então ela é muito preciosa!
- Com certeza, Helena. É uma pedra angular!
- O que é uma pedra angular, Zinguindum?
- Aquela que sustenta a estrutura de uma construção. Sem ela uma construção desaba. Ela é multicor porque cada cor tem sua fortaleza própria. É a comunhão dinâmica entre suas cores que faz da pedra de Marte ser tão especial.
- Eu cuidarei muito bem dela. Vou cuidar por toda a vida. Obrigada, Zinguindum!
- Isso, Helena!
- Ah, Ziguindum, eu gostaria de te contar um segredo maravilhoso.
- Conte-me. Eu adoro segredos.
- Nossa família aumentou. Ganhei uma priminha nova!
- Verdade? Qual o seu nome?
- Flora!
FIM
(AGORA COMEÇA UMA NOVA VIAGEM)



