Alexandre Aragão de Albuquerque
Leito vem do latim, lectus ou lectum. Significa
“cama”, “lugar de repouso”. Na hidrologia, cria-se uma abstração metafórica cuja
água descansa e se acomoda sobre essa estrutura de suporte ao longo de seu
percurso. Ao mesmo tempo, no leito, um rio realiza o seu movimento natural da
fonte até a foz, onde ele aflui a outro corpo d’água.
Além dos rios de superfície, há também um sem-número de águas
subterrâneas, oriundas de rochas porosas e permeáveis, capazes de reter água e
de cedê-la, chegando a formações geológicas que compõem um aquífero,
reservatórios móveis que nutrem rios superficiais e poços artesianos. Realizam
uma missão muito importante de abastecer a vida humana e todo o meio ambiente.
Portanto, requerem extremo cuidado para a sua manutenção sadia e perene.
Como rios, também as vidas humanas necessitam de cuidados.
Elas criam seus percursos, resultado de encontros diversos, alimentadores de
direções e sentidos, alguns determinantes que, mesmo na distância física,
continuam a realizar no tempo uma espécie de retroalimentação continuada na
trajetória de tais vidas.
Nestes dias, tivemos a oportunidade de reaquecer nossas
baterias vitais no reencontro com Lenine, por ocasião do lançamento de sua
turnê do show “Eita!”, aqui em Fortaleza, no último dia 22, no Teatro Riomar.
Em julho do ano passado, em Juazeiro do Norte, já havíamos tido também um
momento de nos encontrar calorosamente.
Lenine é uma das pessoas raras com as quais nosso encontro
acontece como nas águas subterrâneas, em uma dimensão profunda da
sensibilidade, da estética e da ética, no leito do tempo.
Trata-se de um encontro de duas formas de engajamento e
interpretação do Brasil, elaboradoras de produções que emergem de nossas
experiências concretas de refletir e sentir o desafio de preservação da
humanidade em um mundo submetido à lógica violenta da mercantilização absoluta
da vida.
Para mim, nenhuma pessoa pode ser reduzida a objeto nem a
simples peça estatística do sistema socioeconômico. Neste sentido, esforço-me
por realizar uma defesa permanente da centralidade do ser humano enquanto
sujeito histórico, portador de dignidade e consciência crítica, base na qual se
reconhece que a liberdade só pode existir plenamente quando acompanhada de
justiça material, soberania popular e democratização efetiva das estruturas de
poder. Entendo que o ser humano se realiza na coletividade, no trabalho
produtor de cultura, na capacidade de transformação histórica do mundo. Não há
humanidade possível em sociedades organizadas sobre a naturalização da miséria,
da exclusão, do ódio e da violência.
A estética de Lenine, no meu entender, jamais foi de
contemplação passiva. Sua música é atravessada pela tensão, movimento, ruído
urbano, fragmentação tecnológica, respeito às origens, consciência social. Suas
composições contêm rostos e grupos diversos. O Brasil não aparece como uma
paisagem folclórica domesticada para consumo externo, mas como organismo vivo,
castanho, em processo permanente de invenção, oriundo do tambor do índio, do
batuque negro, de Portugal, do interior, da capital, do fundo da floresta, da
selva urbana, dos arranha-céus, da favela, da lama, do caranguejo do mangue, da
caatinga do sertão, do pandeiro, da guitarra e do maracá. Sua música rompe limites
rígidos entre regional e universal, entre tradição e tecnologia, entre erudito
e o dito popular. E ele pergunta: “Com quantos brasis se faz um país chamado
Brasil?”. O seu coração não tem bandeiras nem fronteiras, mas pulsa ao ritmo de
uma canção maior.
Eu compreendo o Brasil como um campo de disputa histórica
entre projetos de sociedade, com a possibilidade de construção de uma nação
soberana popular e socialmente justa. Reconheço a cultura não como mero adorno,
mas como dimensão constitutiva da emancipação humana. Para meu humanismo
crítico, rejeito qualquer compreensão autoritária da sociedade: o humano não é
dado, mas processo histórico participativo, multidimensional e complexo.
Lenine em sua música trabalha simultaneamente beleza e
conflito, desmonta a ideia de uma arte puramente ornamental ou comercial. Sua
estética produz consciência sensível. Quem o escuta, canta e dança, convocado a
perceber criticamente o mundo. Sua música se move, mistura-se, desloca-se.
Percebo que nosso pensamento político e a estética provocadora
de Lenine encontram-se na confiança radical da capacidade criadora humana,
mesmo reconhecendo as forças destrutivas do tecnocapitalismo financeiro
contemporâneo. Recusamo-nos a um fatalismo histórico, arriscando insistentemente
na possibilidade da reinvenção humana. Resistir à superficialidade e aos
clichês talvez seja uma das formas mais importantes de engajamento do século XXI.
É preciso ir a águas mais profundas, reinventando vínculos sociais destruídos
pelos determinismos materialistas.
Neste sentido, o Brasil não pode ser interpretado por
categorias simplistas, importadas de territórios alienistas, reforçando movimentos
neocoloniais de natureza econômica, religiosa e cultural. O desafio de ser brasileiro
é o desafio de resistir à desumanização, por meio da política, da arte e da produção
coletiva. Transformando dor em conscientização, ruídos em musicalização, indignação
em pensamento crítico, esperança (do verbo esperançar) em possibilidade
histórica criativa. Sigamos!
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