Alexandre Aragão de Albuquerque
Noite encantadora na estreia da turnê do
show “Eita!”, de Lenine, ontem, 22/05, no Teatro Riomar, religando pessoas, tempos
e espaços, vidas castanhas que beberam e continuam a beber da água da fonte,
atravessaram pontes, subiram e desceram ladeiras do divino, cruzaram becos da
fome e não chegaram sozinhas, por existirem em par.
Caminhar em par é segredo
milenar. No ensinamento jesuânico a indicação central reside em estarem unidos
dois ou mais, para não padecer do mau pedaço da vida, mas, ao contrário, ao submergir
em poços profundos retornar sorrindo, mesmo em tempos de tempestades como os que
estamos vivenciando pelas ameaças pretéritas e presentes do neofascismo a
atormentar nossas vidas. Como disse Lenine em sua magnífica apresentação de
ontem: “Viva a Democracia!”, que é escolha consciente e livre de viver juntos
civilizadamente, de forma responsável diuturnamente.
Conheci Lenine em 1977 num
contexto muito particular. Apresentamos nossas composições no Festival de
Música do Colégio União, em Recife. Ele com “Chá de Verdade”; eu com “Cida”,
composta em parceria com Léo Damasceno e Laercio Gonçalves. Classificamo-nos para
a grande final a realizar-se no emblemático Teatro do Parque. Para surpresa
nossa, ambas as canções foram censuradas pelos organismos censores da ditadura
de então, cerceando nosso direito de criação, comunicação e expressão artística,
e fomos impedidos de cantar. Mas aquela dor comum nos permitiu um encontro
entre nós.
Por ocasião do emblemático álbum
lançado por Ivan Lins, “Somos Todos Iguais Nesta Noite”, ainda no ano de 1977,
no Colégio Nóbrega, aproveitando a turnê pelo Brasil, promovemos – eu, Léo
Damasceno e José Guilherme – um encontro clandestino de estudantes com Ivan Lins,
bastante participativo, cujo ponto central foi a apresentação de algumas canções
de Lenine para aquele seleto grupo. Passados vários anos, numa conversa com Ivan Lins,
Lenine me disse que Ivan declarou ter sido para ele um dos momentos inesquecíveis em
sua caminhada existencial.
Em 1978, desta vez no Festival de
Música do Colégio Radier, compartilhamos outro momento para mim muito sublime.
Importante registrar que éramos garotos em busca de deixar nossas marcas na
vida. Naquele ano eu tinha somente 17 anos e Lenine 19. Minha canção “Atrás Muito
à Frente”, um frevo pernambucano desafiador, com versos que nos provocavam a
não ficar parados, mas “a correr atrás da borboleta, do bicho da seda, do sabiá,
para sermos tiros certeiros” contra a maldade opressora de então, foi
classificada para final. Para minha alegria e honra, dividi o palco com Lenine:
eu na voz e ele no violão, no palco montado na Rua Nova. Um momento único!
Por fim, antes de ele se
transferir para o Rio de Janeiro, não há como não registrar algumas boas conversas
no pátio do Nóbrega ou mesmo quando por algumas vezes conversávamos no
apartamento de seus pais; Seu Geraldo, para mim um dos grandes teólogos que
conheci, e Dona Dayse, que tinha um xodó todo especial por Léo. Era extasiante saborear das interpretações de
Lenine, sentados no chão da sala, a cantar Milton Nascimento, Gonzaguinha, Erasmo Carlos,
Gino Vanelli, Cat Stevens e tantos outros mais. Eu tinha a certeza de ter
diante de mim uma pessoa especial, uma sensibilidade muito refinada, uma criatividade
e expertise artística originalíssima, um nordestino brilhante.
Eita! é um álbum fruto do amor de
um filho por seu pai. O amor dos filhos salva os pais. E isto eu vi muito de
perto ao longo de minha vida. Porque o amor é uma arte: requer verdade,
entrega, iniciativa, dedicação, criatividade e um olhar todo especial para o
outro, para amá-lo da forma que precisa ser amado.
João da Cruz, místico espanhol do
século XVI, afirma que quem ama de verdade, não teme, vive livre de qualquer impedimento
para dedicar-se ao ser amado. É dele o pensamento que diz: “Onde não há amor,
coloque amor e o encontrará”.
Lenine, em sua mística musical, recita versos muito preciosos: “O fato é que o afeto é a receita, que pode transformar nossa conduta e nos levar a ter mais esperança. O que não tiver jeito, o amor ajeita.”

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