domingo, 25 de junho de 2023

O GUARDADOR DE MUROS (Mini conto 05)

 Alexandre Aragão de Albuquerque 

 

GUARDAR MUROS não é uma tarefa simples. Requer capacidade de gracejo para poder se dar bem, tanto com os que se colocam contrários a sua existência, pela fragmentação da realidade e pelas contradições ocultadas pelos muros, quanto com os seus frequentadores assíduos que na atualidade crescem volumosamente. Afinal, a vista em cima do muro permite conhecimentos simultâneos dos lados separados por aquela construção humana.

Há mais de 30 anos Heuch se dedica a esta tarefa. Recebe boa paga para tanto. Desde criança sempre sonhara com isso, seguindo os passos dos seus antepassados. Cresceu observando como era o desempenho dos seus ídolos em cima do muro: suas manobras, suas piruetas, seus contorcionismos para manterem-se equilibrados, sem, aparentemente, tomar partido de nenhum dos dois lados. Não tomar partido é a sua tática vitoriosa, afinal o muro existe para manter os lados sempre bem separados. Toda a comunicação entre os lados tem que passar obrigatoriamente por aquelas muralhas.

No lado A habitam os moradores da beira-mar, com suas mansões, carrões e jet-skis. Todas as manhãs fazem suas caminhadas, tomam banho de sol, mergulham nas águas transparentes da natureza marinha, criada para o bem de todos, mas tão somente aproveitada pelos Ametropolitas. Não têm pressa e nem são cobrados para concluir esses deleites. A ideia da construção do muro partiu muitos anos atrás de um grupo de seus respeitados chefes de família.

No lado Z estão as pessoas da terra árida que, devido ao muro, não podem ter acesso nem ao banho de mar, nem ao banho de sol e nem às deliciosas caminhadas matinais diárias. No lado dos Zerdados há poucas casas; amontoados, muitos deles não têm sequer onde morar, nem tempo para o lazer, nem o que comer. Trabalham nas empresas dos Ametropolitas, outros vivem de esmolas, outros de delusão. Certos zerdados são escolhidos para oficiais guardadores dos muros, aqueles que fazem toda a administração dessas organizações ametropolitanas, remetendo mensalmente para os proprietários e acionistas os lucros produzidos pelo trabalho dos seus comuradores.

 


 

Heuch é um guardador muito aplicado. O muro do qual é guardião prima por ser uma construção muito esguia, quase atingindo o firmamento. Desse quase-céu, ele vive dedicado a manter a doutrina da boa convivência entre os lados, do não-conflito e da não-reivindicação, por meio da qual realiza periodicamente campanhas de beneficência, em datas comemorativas, mediante as quais os Zerdados recebem bonificações e cestas básicas doadas pelos Ametropolitas, em cerimônias amplamente repercutidas pelas diversas mídias sociais. Além disso, engendra por meio dos seus oficiais-coaching uma variedade de cursos de formação e treinamentos para os Zerdados desenvolverem sua inteligência emocional e espiritual, sua autoempregabilidade, incentivando-os a serem empregadores de si mesmos, de suas carências. Em casos de emergência inesperada de zerdados críticos, questionadores do apartheid social e econômico, estes são submetidos a ultrajes midiáticos, enxovalhamento político e perseguições jurídicas para serem odiados pela população em geral.

O exemplo de Heuch emociona muitas e muitos jovens que buscam seguir sua trilha. Em sua oração do Natal passado, disse ao Bom Deus: “Obrigado, Senhor, por me haveres concedido a graça de ser um Guardador de Muro. Tu o sabes bem o quanto procuro fazer com excelência e primor essa Tua vontade. A presença dos muros no mundo permitem a vida harmoniosa e tranquila entre os lados separados. E que assim seja!”. Por guardar muros, Heuch considera-se um homem feliz e realizado, cumpridor dos seus deveres.

 

quarta-feira, 24 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Capítulo final)

 Alexandre Aragão de Albuquerque

 

Capítulo 07

 

Já em seu quarto, antes de dormir, Helena meditou: “por que será que Zinguindum gosta tanto de viajar?”. Enquanto pensava, adormeceu e acabou sonhando imagens fantásticas.

No sonho, Helena fez sua estreia no comando da espaçonave Quanta. Viajou na velocidade da luz até a nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra, no estado de Minas Gerais. Ficou impressionada como um simples olho d’água pode transformar-se num rio imenso e extenso. Firmou-se ali por horas contemplando aquela bela paisagem, ladeada por Quanta. De repente, escutou a voz de Zinguindum que lhe dizia: “Sabe, Helena, a viagem nunca acaba, estamos sempre viajando. O fim de uma viagem é o começo de outra. Um olho d’água pode se transformar em um rio, um rio poderá ser olho d’água de quê? Contemplar as águas de um rio ao nascer do sol será o mesmo que apreciá-las no tramonto? Viajar é vislumbrar as pessoas, as geografias, as histórias, os fatos, por ângulos diferentes, para tentarmos entender um pouco mais os segredos da vida, para vive-la cada vez melhor”.

Esse foi um dos sonhos mais bonitos que Helena já teve. Acordou em paz, um pouco mais tarde porque era feriado.  Depois do café, seu papai chegou-lhe com uma surpresa. Um pacote colorido. O que seria aquilo?

- Helena, ontem chegou essa encomenda que o vovô Dedé enviou para você juntamente com esse cartãozinho.

- Papai! Será que é a pedra de Marte?

Pegou depressa o cartão e começou a ler:

“Querida Helena, estou lhe enviando a pedra de Marte que recebi de Zinguindum. Ele me disse que fizesse um bom uso dela. Com meu grande amor por você, Vovô Dedé”.




Ela estava emocionada! Finalmente!

Com calma foi abrindo o pacotinho colorido. Eis que lá estava, uma pedrinha pequenina, colorida como as abelhas, como as acácias e como as sakuras de Marte descritas por Zinguindum. Possuía um brilho encantador, causando uma estranha impressão de que queria conversar com Helena.

Qual seria o segredo da pedra de Marte? Seria o caso de perguntar a Zinguindum ou seria melhor tentar descobrir por conta própria? Enquanto decidia, seu papai chegou com o celular:

- É Zinguidum, para você.

- Oba, que bom! Oi, Zinguindum! Recebi a pedra de Marte. Ela é lindaaaaa! Obrigadaaaaaa!

- Que bom que você gostou, Helena. É uma pedra muito resistente, como o diamante. Mas também é muito leve, cem vezes mais leve que o isopor. Já pensou? E ainda é super maleável, parecida com o mercúrio, se ajusta rapidamente às mudanças. Essas são algumas qualidades que ela desenvolve, de acordo com as circunstâncias onde está colocada. Sei que você vai descobrir tantas outras qualidades que a pedra de Marte carrega consigo.

- Sabe, Zinguindum, quando a coloquei em minha mão tive a sensação de que ela queria conversar comigo.

- Foi mesmo, Helena?

- Foi.

- E o que você fez?

- Fiquei sem jeito. Eu nunca conversei com uma pedra.

- Sempre há uma primeira vez, Helena. Lembre-se de que não é uma pedra qualquer, é uma pedra de Marte!

- Você acha que ela conversaria comigo?

- Tente. A pedra de Marte guarda imensas surpresas. Se você conseguir tocar-lhe em seu centro vital, ela lhe revela muito dos seus segredos, de sua beleza, de sua bondade, de sua ciência.

- E como se faz para tocar-lhe o seu centro vital?

- Com simplicidade, Helena. E com paciência, honestidade e amizade para com ela. Para mim, é uma companheira de viagem, ajuda-me a brincar brincadeiras novas e antigas, a enfrentar dificuldades, a encarar com tranquilidade as derrotas e, principalmente, a recomeçar com novo ânimo a cada dia. Se eu pudesse, Helena, eu daria uma pedra de Marte para todas as crianças do mundo. Mas uma coisa que eu aprendi é que as crianças que têm sua pedra de Marte podem fazer com que outras crianças possam conhecê-la também.




- Como, Zinguindum?

- Com a vida. Aprendi que a pedra de Marte nos ajuda a viver cada dia melhor. Como um olho d’água que se transforma num Rio São Francisco que abastece as pessoas com a pureza de sua água cristalina e a força de sua correnteza.

- Nossa, Zinguindum, então ela é muito preciosa!

- Com certeza, Helena. É uma pedra angular!

- O que é uma pedra angular, Zinguindum?

- Aquela que sustenta a estrutura de uma construção. Sem ela uma construção desaba. Ela é multicor porque cada cor tem sua fortaleza própria. É a comunhão dinâmica entre suas cores que faz da pedra de Marte ser tão especial.

- Eu cuidarei muito bem dela. Vou cuidar por toda a vida. Obrigada, Zinguindum!

- Isso, Helena!

- Ah, Ziguindum, eu gostaria de te contar um segredo maravilhoso.

- Conte-me. Eu adoro segredos.

- Nossa família aumentou. Ganhei uma priminha nova!

- Verdade? Qual o seu nome?

- Flora!

 

 

FIM

(AGORA COMEÇA UMA NOVA VIAGEM)

 

terça-feira, 23 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Penúltimo capítulo)

Alexandre Aragão de Albuquerque

 

Capítulo 06

 

Durante o jantar, Helena comentou com o papai e a mamãe a conversa da tarde com Zinguindum.

- Olha, ele além de construir uma espaçonave quântica, também toca violão, sanfona e flauta. E faz um trabalho muito importante numa instituição que acolhe crianças com câncer. Ele dedica algumas manhãs para estar com elas. Tem também outro amigo que vai com ele fazer mágicas e contar estórias.

O papai de Helena escutou com muita atenção o relato da filha. E depois interveio:

- Helena, posso revelar um segredo?

- Um segredo? Claro, eu adoro segredos!

- Quando eu era mais jovem, também vivenciei uma experiência parecida lá em Fortaleza. Com alguns amigos e amigas, nós íamos passar os sábados à tarde com crianças portadoras de câncer. Chamávamos de Sabadão.

- Verdade? Igual ao Zinguindum?

- Sim. Eram momentos muito fortes para mim porque procurávamos compartilhar um pouco do nosso tempo para conviver com aquelas crianças. Aquelas tardes sempre traziam um sentido a mais em minha caminhada de adolescente.

- Que legal, papai! Conta mais!

- Lembro que fiquei amigo de um garoto chamado Levi. Ele tinha 11 anos. Era época de Natal. Depois de um Sabadão muito divertido, eu senti o desejo de dar um presente só para ele, porque estava muito doentinho, muito pálido e fraco. Fui numa loja e comprei uma camisa bem bonita para ele. No sábado seguinte, cheguei mais cedo para poder presentear Levi com a camisa. Mas para surpresa minha, Helena, ele não estava mais lá, tinha partido da Terra e se transformado numa estrelinha. Eu chorei muito porque havia construído uma amizade de verdade com Levi. E hoje, toda vez que vejo estrelas no céu, fico imaginando qual estrela deve ser Levi.




- Sabe, papai, Zinguindum me ensinou uma canção bem bonita que ele canta para as crianças que ele acompanha. Quer escutar?

- Quero, Helena.

- É assim:

Quando terminou o meu dia

Fui fazer a minha oração

Senti uma grande alegria

Invadir o meu coração

Eu lavei os pratos

Engraxei sapatos

E varri a casa também

Escutei amigos

Visitei doentes

Reparti o meu pão com alguém

 

- Linda, Helena! É exatamente assim que eu me sentia quando estava naquelas tardes conversando com Levi. Quando a gente se coloca na disposição de repartir nosso pão, uma alegria muito especial invade o nosso coração.

- Hoje foi um dia muito legal, papai. Eu vou escrever para Lis dizendo tudo isso, do trabalho importante do Zinguindum e da sua experiência com Levi. E vou cantar para ela a nova canção que eu aprendi.

- Muito bem, Helena!

 

O LEITO DOS RIOS

Alexandre Aragão de Albuquerque   Leito vem do latim, lectus ou lectum. Significa “cama”, “lugar de repouso”. Na hidrologia, cria-se uma abs...