Alexandre Aragão de Albuquerque
GUARDAR MUROS não é uma tarefa simples. Requer capacidade de gracejo para poder se dar bem, tanto com os que se colocam contrários a sua existência, pela fragmentação da realidade e pelas contradições ocultadas pelos muros, quanto com os seus frequentadores assíduos que na atualidade crescem volumosamente. Afinal, a vista em cima do muro permite conhecimentos simultâneos dos lados separados por aquela construção humana.
Há mais de 30 anos Heuch se dedica a esta tarefa. Recebe boa paga para tanto. Desde criança sempre sonhara com isso, seguindo os passos dos seus antepassados. Cresceu observando como era o desempenho dos seus ídolos em cima do muro: suas manobras, suas piruetas, seus contorcionismos para manterem-se equilibrados, sem, aparentemente, tomar partido de nenhum dos dois lados. Não tomar partido é a sua tática vitoriosa, afinal o muro existe para manter os lados sempre bem separados. Toda a comunicação entre os lados tem que passar obrigatoriamente por aquelas muralhas.
No lado A habitam os moradores da beira-mar, com suas mansões, carrões e jet-skis. Todas as manhãs fazem suas caminhadas, tomam banho de sol, mergulham nas águas transparentes da natureza marinha, criada para o bem de todos, mas tão somente aproveitada pelos Ametropolitas. Não têm pressa e nem são cobrados para concluir esses deleites. A ideia da construção do muro partiu muitos anos atrás de um grupo de seus respeitados chefes de família.
No lado Z estão as pessoas da terra árida que, devido ao muro, não podem ter acesso nem ao banho de mar, nem ao banho de sol e nem às deliciosas caminhadas matinais diárias. No lado dos Zerdados há poucas casas; amontoados, muitos deles não têm sequer onde morar, nem tempo para o lazer, nem o que comer. Trabalham nas empresas dos Ametropolitas, outros vivem de esmolas, outros de delusão. Certos zerdados são escolhidos para oficiais guardadores dos muros, aqueles que fazem toda a administração dessas organizações ametropolitanas, remetendo mensalmente para os proprietários e acionistas os lucros produzidos pelo trabalho dos seus comuradores.
Heuch é um guardador muito aplicado. O muro do qual
é guardião prima por ser uma construção muito esguia, quase atingindo o
firmamento. Desse quase-céu, ele vive dedicado a manter a doutrina da boa
convivência entre os lados, do não-conflito e da não-reivindicação, por meio da
qual realiza periodicamente campanhas de beneficência, em datas comemorativas, mediante
as quais os Zerdados recebem bonificações e cestas básicas doadas pelos
Ametropolitas, em cerimônias amplamente repercutidas pelas diversas mídias
sociais. Além disso, engendra por meio dos seus oficiais-coaching uma variedade
de cursos de formação e treinamentos para os Zerdados desenvolverem sua
inteligência emocional e espiritual, sua autoempregabilidade, incentivando-os
a serem empregadores de si mesmos, de suas carências. Em casos de emergência inesperada de zerdados críticos, questionadores do apartheid social e econômico, estes são submetidos a ultrajes midiáticos, enxovalhamento político e perseguições jurídicas para serem odiados pela população em geral.
O exemplo de Heuch emociona muitas e muitos jovens
que buscam seguir sua trilha. Em sua oração do Natal passado, disse ao Bom
Deus: “Obrigado, Senhor, por me haveres concedido a graça de ser um Guardador
de Muro. Tu o sabes bem o quanto procuro fazer com excelência e primor essa Tua
vontade. A presença dos muros no mundo permitem a vida harmoniosa e tranquila
entre os lados separados. E que assim seja!”. Por guardar muros, Heuch
considera-se um homem feliz e realizado, cumpridor dos seus deveres.
