domingo, 28 de junho de 2026

SOBRE A MÍSTICA

 Alexandre Aragão de Albuquerque


No budismo japonês, Mística provém de myô, e pode significar algo maravilhoso muito além da compreensão racional humana, relacionado à essência profunda da vida e ao potencial de transformação e iluminação que nos permite ver mais além. Mística tem a ver com o objetivo das religiões, ou seja, a busca por responder como pessoas que atravessam sofrimentos os mais profundos e desesperadores, podem encontrar no centro do seu coração a alegria e o sentido de viver.

Não é à toa que myo, em grego, também origina a palavra miocárdio, o músculo central do coração humano. Myo também significa o procedimento de fechar os olhos para o exterior para abrir-se ao olhar interior contemplativo. A Mística mobiliza as mais poderosas energias psíquicas dos sujeitos. Tais energias podem elevar o ser humano às mais altas formas de conhecimento e de amor, orientadas pela intencionalidade própria dessa experiência original.

Geralmente ela é utilizada nos ritos de grupos religiosos, sociais e políticos, por meio de dinâmicas e construções simbólicas. Em um símbolo temos ao menos dois elementos: um visível e outro invisível. Como é o caso dos sacramentos cristãos que contêm os sinais sensíveis de realidades invisíveis (a graça).

A experiência mística, portanto, é uma experiência da paixão, o indizível que aspira pelo dizer. Na impossibilidade da palavra, da imposição da carência e da ignorância por não-saber, a mística expressa-se por meio de símbolos, de choros, de orações, de noites sem fim.

Para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, a Mística não é um estado de transe, de fuga do mundo ou algo exclusivo a determinadas categorias de pessoas, como monges ou ascetas. Pelo contrário, trata-se de uma experiência radical, cotidiana e integrada à realidade. Em suas obras Saber Cuidar e O Despertar da Águia, ele contrapõe o excesso de racionalismo instrumental do Ocidente a uma mística ligada à inteligência espiritual ou cordial.

Enquanto o racionalismo pragmático analisa, divide, calcula e visa à dominação do outro, a Mística sente, acolhe, cuida e se enternece. Ela é a capacidade de escutar profundamente a dimensão do Mistério que habita todas as coisas.

A Mística nos faz ver o outro não como um objeto, mas como um irmão, alguém que possui o mesmo gérmen humano, e a Terra, não como um baú a ser explorado, mas como a Grande Mãe que deve ser cuidada com amor. A verdadeira contemplação gera indignação ética traduzindo-se em prática libertadora e do cuidado.

Também para o Papa Francisco, a Mística não tem nada de esotérica, melancólica ou distante da realidade. Em perfeita sintonia com o seu magistério, ele defendeu “uma mística de olhos abertos” ou “uma mística do cotidiano”, que encontra Deus nas periferias existenciais e sociais do mundo.

Em suas encíclicas Evangelii Gadium e Laudato sì, Francisco delineia essa visão em três eixos fundamentais:

1. Mística do Encontro e da Fraternidade: Contra a tentação de uma espiritualidade individualista ou de um “Jesus intimista” típico da ideologia neoliberal, ele propõe a mística de sair de si mesmo para se unir aos outros, ao expressar-se magnificamente: “Há uma mística do viver juntos, de nos misturarmos, de nos encontrarmos, de dar o braço, de nos apoiarmos, de participar nesta maré caótica que pode ser transformada numa verdadeira experiência de fraternidade”. (Evangelli Gaudium, item 87).

2.  Mística Ecológica (A Interconexão de Tudo): A mística ecológica consiste em perceber que tudo está interconectado. Uma espiritualidade que escuta o clamor dos pobres e o clamor da terra gera uma conversão no modo de consumir e de habitar o planeta.

3.   Mística da Santidade Ao Pé da Porta: Santos ao pé da porta é uma expressão cunhada por Francisco para se referir à mística do dia a dia: os pais e mães que criam seus filhos e filhas com amor; os trabalhadores e trabalhadoras que cumprem seu trabalho com dignidade, atentos às lutas de sua classe; a mística da paciência e da fidelidade nas pequenas coisas do dia a dia; a mística da generosidade e da alegria.

Por fim, de minha perspectiva política, Mística não é alienação; ela é o antídoto contra a instrumentalização ideológica da fé, das concepções redutivas de Deus para servir aos interesses dos poderosos. A Mística abre-se ao Mistério como acontecimento a ser acolhido com total disponibilidade. Mistério que não se opõe à inteligência; pelo contrário, desafia a razão a ir além dos seus próprios preconceitos e limites. Falar de Deus não é falar dele de forma abstrata ou doutrinária, mas experimentá-lo junto com os outros na caminhada histórica e humana.

Uma autêntica espiritualidade gera sujeitos conscientes, projetando-os ao engajamento na esfera pública como força ética transformadora. Exige o reconhecimento que o processo de libertação humana requer consciência autocrítica e crítica das estruturas sociais, com a consequente superação de discursos e práticas religiosas que legitimam opressões. Dessa forma, a contemplação (Mística) gera necessariamente indignação e ação política orientadas pela compaixão, pela justiça e pela defesa intransigente da dignidade humana. É a experiência do Mistério vivo que humaniza o sujeito, arrancando-o da superficialidade do pensamento raso, transformando sua espiritualidade em compromisso concreto com a democracia, a inclusão social e a libertação dos oprimidos. Exige coragem e engajamento real.




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