Alexandre Aragão de Albuquerque
No budismo japonês, Mística provém de myô, e pode significar
algo maravilhoso muito além da compreensão racional humana, relacionado à essência
profunda da vida e ao potencial de transformação e iluminação que nos permite
ver mais além. Mística tem a ver com o objetivo das religiões, ou seja, a busca
por responder como pessoas que atravessam sofrimentos os mais profundos e
desesperadores, podem encontrar no centro do seu coração a alegria e o sentido
de viver.
Não é à toa que myo, em grego, também origina a palavra miocárdio,
o músculo central do coração humano. Myo também significa o procedimento
de fechar os olhos para o exterior para abrir-se ao olhar interior contemplativo.
A Mística mobiliza as mais poderosas energias psíquicas dos sujeitos. Tais
energias podem elevar o ser humano às mais altas formas de conhecimento e de amor,
orientadas pela intencionalidade própria dessa experiência original.
Geralmente ela é utilizada nos ritos de grupos religiosos,
sociais e políticos, por meio de dinâmicas e construções simbólicas. Em um símbolo
temos ao menos dois elementos: um visível e outro invisível. Como é o caso dos
sacramentos cristãos que contêm os sinais sensíveis de realidades invisíveis (a
graça).
A experiência mística, portanto, é uma experiência da paixão,
o indizível que aspira pelo dizer. Na impossibilidade da palavra, da imposição da
carência e da ignorância por não-saber, a mística expressa-se por meio de símbolos,
de choros, de orações, de noites sem fim.
Para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, a Mística não é um
estado de transe, de fuga do mundo ou algo exclusivo a determinadas categorias
de pessoas, como monges ou ascetas. Pelo contrário, trata-se de uma experiência
radical, cotidiana e integrada à realidade. Em suas obras Saber Cuidar e O Despertar
da Águia, ele contrapõe o excesso de racionalismo instrumental do Ocidente
a uma mística ligada à inteligência espiritual ou cordial.
Enquanto o racionalismo pragmático analisa, divide, calcula e
visa à dominação do outro, a Mística sente, acolhe, cuida e se enternece. Ela é
a capacidade de escutar profundamente a dimensão do Mistério que habita todas
as coisas.
A Mística nos faz ver o outro não como um objeto, mas como um
irmão, alguém que possui o mesmo gérmen humano, e a Terra, não como um baú a
ser explorado, mas como a Grande Mãe que deve ser cuidada com amor. A
verdadeira contemplação gera indignação ética traduzindo-se em prática
libertadora e do cuidado.
Também para o Papa Francisco, a Mística não tem nada de esotérica,
melancólica ou distante da realidade. Em perfeita sintonia com o seu magistério,
ele defendeu “uma mística de olhos abertos” ou “uma mística do cotidiano”,
que encontra Deus nas periferias existenciais e sociais do mundo.
Em suas encíclicas Evangelii Gadium e Laudato sì, Francisco
delineia essa visão em três eixos fundamentais:
1. Mística do Encontro e da Fraternidade: Contra a tentação de uma
espiritualidade individualista ou de um “Jesus intimista” típico da ideologia
neoliberal, ele propõe a mística de sair de si mesmo para se unir aos outros,
ao expressar-se magnificamente: “Há uma mística do viver juntos, de nos misturarmos,
de nos encontrarmos, de dar o braço, de nos apoiarmos, de participar nesta maré
caótica que pode ser transformada numa verdadeira experiência de fraternidade”.
(Evangelli Gaudium, item 87).
2. Mística Ecológica (A Interconexão de Tudo): A mística ecológica consiste em perceber que tudo
está interconectado. Uma espiritualidade que escuta o clamor dos pobres e o clamor
da terra gera uma conversão no modo de consumir e de habitar o planeta.
3. Mística da Santidade Ao Pé da Porta: Santos ao pé da porta é uma expressão cunhada por
Francisco para se referir à mística do dia a dia: os pais e mães que criam seus
filhos e filhas com amor; os trabalhadores e trabalhadoras que cumprem seu
trabalho com dignidade, atentos às lutas de sua classe; a mística da paciência
e da fidelidade nas pequenas coisas do dia a dia; a mística da generosidade e
da alegria.
Por fim, de minha perspectiva política, Mística não é
alienação; ela é o antídoto contra a instrumentalização ideológica da fé, das concepções
redutivas de Deus para servir aos interesses dos poderosos. A Mística abre-se
ao Mistério como acontecimento a ser acolhido com total disponibilidade. Mistério
que não se opõe à inteligência; pelo contrário, desafia a razão a ir além dos
seus próprios preconceitos e limites. Falar de Deus não é falar dele de forma
abstrata ou doutrinária, mas experimentá-lo junto com os outros na caminhada
histórica e humana.
Uma autêntica espiritualidade gera sujeitos conscientes,
projetando-os ao engajamento na esfera pública como força ética transformadora.
Exige o reconhecimento que o processo de libertação humana requer consciência autocrítica
e crítica das estruturas sociais, com a consequente superação de discursos e práticas
religiosas que legitimam opressões. Dessa forma, a contemplação (Mística) gera
necessariamente indignação e ação política orientadas pela compaixão, pela
justiça e pela defesa intransigente da dignidade humana. É a experiência do
Mistério vivo que humaniza o sujeito, arrancando-o da superficialidade do pensamento
raso, transformando sua espiritualidade em compromisso concreto com a democracia,
a inclusão social e a libertação dos oprimidos. Exige coragem e engajamento
real.
