domingo, 7 de maio de 2023

A MENINA DOS OLHOS VERDES (Mini conto 03)

 Alexandre Aragão de Albuquerque

 

Naquela noite o jovem Gustavo, excepcionalmente, sentia-se feliz. 

Nestes últimos meses está ministrando alfabetização de adultos a moradores da Ilha do Inferno, uma pequena ocupação insular fluvial desconhecida da sociedade, das redes digitais e das instituições. Como Bacurau, e como muitas outras ilhas, aquela é invisível aos mapas, às coberturas jornalísticas, aos projetos de governo. Apenas acontece cotidianamente, pedra sobre pedra, para a castigada existência daqueles moradores insulados.

Acessar diariamente aquele inferno não é tão fácil assim. Requer um pouco de coragem. Dá-se por meio de uma porta estreita. As pessoas têm que encarar com muito equilíbrio, para atravessá-la todos os dias, uma pinguela, bastante precária, sempre em concordância com a maré. A qualquer vacilo na travessia podem ser levadas pela torrente das águas sujas daquele braço de rio. Caso não saibam nadar, sucumbem, afinal poucos estão dispostos a se besuntar na lama para salvar alguém se afogando na correnteza da vida. Como aconteceu com Margarida, por sorte, salva por um desconhecido garoto, de quem ninguém soube o nome, que casualmente por ali passava. Ela não para de contar a quem encontre, seu salvamento por aquele menino.

Os círculos de alfabetização se dão sempre às noites de maré baixa, sob a luz de candeeiros, porque na maré alta as águas costumam visitar religiosamente os interiores dos barracos. Imperativas emboscadas da vida. A maioria dos alfabetizandos é composta por adultos pescadores e pescadeiras de mariscos daquela região. Há algumas organizações populares que dão suporte por meio de projetos educacionais e desenvolvimento de arranjos microeconômicos. Gustavo faz parte do grupo de um projeto de educação de adultos. Está vibrando com o desenvolvimento pedagógico do seu coletivo. Os homens em sua maioria têm muita dificuldade no domínio do lápis, devido às mãos pesadas, ao exercitarem a coordenação motora fina; já as mulheres enfrentam o cansaço da jornada de trabalho, acumulada na pesca, com os afazeres nos barracos e no cuidado com a prole. Mas todos estão bastante comprometidos com o desafio da novidade: desvendar o desconhecido da leitura e da escrita do mundo.

Naquela noite a maré estava alta. Como não haveria encontro com os educandos, Gustavo saiu para um lazer. Não foi dar um passeio no parque, nem tampouco havia um encontro marcado. Deixou-se guiar pelo acaso. Passeava sentindo a inusitada paz em seu coração. Até chegar a um barzinho aconchegante, por ele já frequentado. A noite transpirava muita leveza. Sentou-se à mesa de um grupo de amigos. Logo em seguida, passou para a mesa de outra galera que lhe solicitou sua presença. E assim Gustavo ficou, sem régua nem compasso, a se divertir.

De repente sentiu algo diferente no ar. Uma forte sensação de estar sendo seguido por um olhar. Detidamente, parou para observar o entorno. Depois de algum tempo, finalmente identificou a dona dos olhos verdes que o seguia com o olhar dócil. Encarou-a por um instante, desviou seu olhar. Desconcertado, no primeiro momento não soube o que fazer. A respiração ficou mais intensa, o pulso mais veloz. Procurou recuperar-se a si mesmo diante da novidade singular, até entender como agir.

Hesitou por alguns minutos. Resolveu dirigir-se até à mesa da solitária dona dos olhos verdes. Logo que se sentou, por um longo momento nada disseram um ao outro com os lábios. Comunicaram-se mediante um misterioso silêncio, apenas olhares deleitantes, do fundo das retinas. Olhos nos olhos, um sorriso; olhos nos olhos, uma centelha confidente. Um inusitado estar diante do outro.

Enfim, as primeiras palavras. Gustavo, sentindo um frio em sua alma, convidou-a para dançar. O calor dos corpos colados, ao ritmo de um bolero, aqueceu o silêncio, dilatou a atração recíproca. Dois pra lá, dois pra cá. Os dois envoltos pela magia da dança, parecia que se atraíam desde tempos remotos. A leve brisa do local batendo continuamente em seus corpos era portadora de uma ária extasiante.

Mas, subitamente, a surpresa. A menina dos olhos verdes interrompeu a dança. Educadamente se despediu, beijando-lhe a face, partiu velozmente, deixando-o sozinho e atarantado. Passados alguns segundos, recuperado do impacto, Gustavo se dirigiu para a mesa dos amigos, sem entender o mistério da fuga aferrada daquela desconhecida mulher.

Uma noite, um feixe de olhares reluzentes, corpos colados, um êxtase. Desde então, nunca mais voltou a encontrar a enigmática menina dos olhos verdes, por mais que houvesse retornado àquele bar na tentativa de revê-la. Quando a maré voltou a baixar, Gustavo retomou o trabalho habitual dos encontros pedagógicos com seus alfabetizandos.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O LEITO DOS RIOS

Alexandre Aragão de Albuquerque   Leito vem do latim, lectus ou lectum. Significa “cama”, “lugar de repouso”. Na hidrologia, cria-se uma abs...