Alexandre Aragão de Albuquerque
Netas são contemplação. Novamente encantados pelo mistério da vida, presenteados outrora pela chegada ao mundo de nossos filhos, agora somos arrebatados pelo êxtase do surgimento de uma novíssima geração. Das netas, acompanhamos seus passos com menos rigor e mais leveza, aprendemos com sua inventividade meninil, deixamo-nos conduzir muito mais pelas brincadeiras e tontices, mesmo se na maioria das vezes não conseguimos acompanha-las em seus ritmos.
De quando em vez nos visitam, dormem conosco em nossos leitos, mesmo sabedores que no dia seguinte estaremos com nossa coluna vertebral literalmente combalida pelos chutes recebidos durante a madrugada movimentada pelos seus giros acrobáticos. Lembro que na véspera do São João passado, minhas três netas piruetaram na nossa cama o tempo todo cantando “Olha pro céu, meu amor”. Resultado, tivemos de adquirir um novo colchão, pois as molas pisoteadas pela dança das meninas não suportaram tamanha energia.
Netas olham para os avós com mais liberdade e curiosidade. Realizam experiências marcantes. Eu mesmo me lembro de uma infinidade de momentos vividos com minha avó paterna, carrego-os comigo como precioso tesouro. A experiência cotidiana no interior do grupo familiar enriquece-nos e libera-nos para além de nós mesmos. Na família temos a ocasião de vivenciar diversas dimensões que nos constituem como humanos. Aprendemos a sorrir, a cantar, a ouvir, a falar, a respeitar, a repartir, a espernear, a perdoar, a saber perder e saber ganhar. A família é uma comunidade de cuidados, em razão das necessidades que se prolongam por toda a vida. O amor nasce e cresce com esse cuidado, em uma realidade compartilhada e comprometida.
Duas breves imagens a registrar. A casa de minha avó Conceição era aberta a todos. Estava sempre em movimento, recebendo amigas, parentes, como também pessoas necessitadas de solidariedade concreta. Uma marca indelével na minha memória: durante a semana, no início da noite, uma meninada preenchia seu terraço para assistir à televisão, novidade para todos nós naqueles anos 1960 recifenses. Essa meninada era paupérrima, moradora de uma ocupação de um sítio abandonado, no final de nossa rua. E ela os acolhia diariamente em sua casa com muito respeito e alegria. Um caráter de generosidade radical para com o próximo a conduzir toda a sua vida.
A segunda memória guardada em meu peito, quando eu ainda criança, chamava-me para narrar a vida dos personagens cristãos que ela admirava desde sua infância: os santos. Aos meus sete anos de idade, maravilhava-me com os relatos sobre aquelas pessoas concretas e reais, capazes de feitos grandiosos e imprevistos por amor ao semelhante. Era como se estivesse passando um filme a cada relato: Francisco de Assis, João Bosco, Cura D’ars, Madalena, Agostinho e tantos outros. Graças à minha avó, essas biografias de humanismo radical marcaram o meu imaginário infantil e a construção de minha personalidade.
Ontem, ao mar, inesperadamente, fui agraciado com mais uma visão contemplativa. Na tela de fundo, o encontro das cores no fim do horizonte: mar e céu bem juntinhos. A trilha sonora composta pela sinfonia da forte brisa de agosto, incansável em seu assopro, harmonizando-se com um marulho calmo de uma maré rasante a convidar-nos ao mergulho em sua misteriosa fluidez remexente. Que sonoridade! E sob os pés, cachos de seixos na areia sob o tapete de algas marinhas. Nada atravancava aquela fotografia extasiante: um retiro do tempo, imersão no espaço natural. Baita saudade! Inefável alegria!
De súbito, completa-se o quadro com a imagem de minha neta velejando nos ombros do pai, de um lado a outro, como se a vida fosse eternamente apenas aquilo ali. Uma amizade profunda entre os dois, conversas, risos e brincadeiras correndo soltos. Uma confiança plena da criança menina no homem adulto; ambos envoltos pelo mar.
O mar, a brisa, a criança, o adulto. Mas se o tempo passa, o que permanece?

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