domingo, 21 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Capítulo 04)

Alexandre Aragão de Albuquerque 


Capítulo 04

Quando chegou em casa, Helena estava faminta e muito elétrica, afinal a turma ficou perguntando o tempo todo sobre Zinguindum e a pedra de Marte. Deixou o material escolar no quarto, foi banhar-se para depois almoçar. Como de costume, ela canta embaixo do chuveiro:

A alegria não é uma meta

Como dizia o poeta

É força que vem de dentro

É rocha

É vento

 

Arrumou-se, foi almoçar com o papai, a mamãe e a irmãzinha Catarina. Colocou em seu prato muito brócolis, muita couve e muito espinafre. Quem lhe deu essa dica foi sua prima Lis que adora comer esses legumes. Mas não deixou de encher o prato de arroz, seu alimento preferido. Catarina gosta mais de feijão, também adora chocolate.

- Mamãe, hoje na Roda da Novidade eu contei para os coleguinhas sobre a pedra de Marte.

- E aí, Helena, como foi?

- Todo mundo queria saber mais e a professora perguntou se a gente gostaria de visitar o planetário para conhecer a história dos astros celestes.

- Que legal, Helena. Já marcaram a visita?

- Ainda não, mamãe. Mas eu estou pensando em convidar o Zinguindum para ir também com a gente. Aí ele aproveita e conta pra todo mundo como foi sua viagem pelo espaço.

- Sim. Eu também quero ir. Pergunta para sua professora se eu posso, tá certo? Agora, vamos tratar de comer esse prato colorido para você ficar bem forte e sabida!

- Papai, quando será que o Vovô Dedé vai trazer a pedra de Marte?

- Olha, querida, assim que o Zinguindum enviar para ele.

- Você poderia ligar para o vovô, para saber quando o Zinguindum  vai enviar?

- Posso sim. Quando terminar o almoço eu ligo para o vovô.

Como havia prometido, o papai de Helena ligou para o Vovô Dedé dizendo-lhe que ela queria falar com ele.

- Vovô, Zinguindum já lhe deu a pedra de Marte?

- Ainda não, Helena. Você gostaria de perguntar a ele quando vai me enviar?

- Sim!

- Então eu vou pedir para ele ligar para o celular do seu papai.

Helena não podia imaginar que falaria pela segunda vez com Zinguindum. Ela nem devolveu o celular para o papai, ficou aguardando a ligação. Seu coração começou a bater mais rápido pela expectativa.

- Alô, é Zinguindum?

- Sim. É a Helena que fala?

- Sou eu, Zinguindum. Como você está?

- Estou bem, Helena. Muito feliz com a viagem pelo espaço. E mais feliz agora por estar conversando com você.

- Zinguindum, posso saber como foi a viagem?

- Pode sim.

- Então me fala, Zinguindum.

- Olha, Helena foi uma viagem muito divertida! Se eu pudesse eu teria ficado por lá por muito mais tempo para descobrir as maravilhas que existem em Marte.

- Como é sua espaçonave? Ela tem um nome?

- O nome dela é Quanta. É uma espaçonave quântica. Parece uma bolha de sabão, bem levezinha, transparente e flutua no ar. Eu pensei de construir uma espaçonave quântica porque a viagem fica mais rápida, Helena. Basta eu exclamar a senha e Quanta desaparece da Terra e aparece em Marte, num piscar de olhos.

- Uma espaçonave quântica?! Você é muito inteligente, Zinguindum. Quanto tempo levou para você chegar em Marte?

- A Quanta, Helena, viaja na velocidade da luz. A duração da viagem se dá em poucos segundos.

- E como você conseguiu viajar tão rápido assim?

- A bolha de sabão da qual Quanta é formada. Eu entro dentro da bolha de sabão e ela me protege. Em seu interior é como se eu fizesse parte do seu organismo, fico leve e flutuo. Flutuar é tão bom! Quando eu era criança, eu fazia muitas bolhas com água de sabão e soprava-as com canudos feitos de talos de mamoeiro. Era uma delícia ver aquelas bolhas flutuando no ar.

- Que legal, Zinguindum! Eu também quero ficar leve e flutuar!

- Então, eu pronuncio uma palavra-chave que aciona a espaçonave para ela realizar a viagem celeremente.

- E qual é a palavra-chave, Zinguindum?

- É “pim pirilim pimpim”. Depois disso, Quanta desaparece da Terra e aparece em Marte. Mas quando eu não aciono a palavra-chave, Quanta flutua pelo espaço calmamente.

- Conta mais, Zinguindum.

- Assim que apareci em Marte, fiquei maravilhado com o seu céu. É todo cor-de-rosa, bem clarinho, da cor dos jambinhos rosas do quintal de minha avó. Deu vontade até de mordê-lo. Quanta estava flutuando na maior tranquilidade, para descobrir as belezas do lugar. De repente, Helena, apareceu uma nuvem de lindas abelhas. Eram tantas e muito coloridas. Pareciam estar muito contentes. Havia abelha vermelha, azul, verde, amarela, alaranjada, lilás, preta, branca. Uma verdadeira aquarela. Eu nunca tinha visto nada igual. E elas acompanhavam Quanta na sua flutuação, fazendo várias piruetas e sorrindo para mim. Subitamente, partiram na frente, como se estivessem pedindo para serem seguidas. Quanta não teve dúvida, disparando no seguimento delas. E quando menos esperei, deparamos com uma imensa flora que lembrava as acácias terrestres. Eu fiquei contemplando a beleza daquela vegetação. Coisa linda! E imediatamente a minha lembrança viajou nas estórias que minha avó contava sobre as acácias. Foi uma emoção enorme, Helena, contemplar aquelas acácias coloridas, nas mesmas cores das abelhas. Eu sabia que a acácia é um excelente alimento para as abelhas, mas nunca pensei na minha vida de encontrar abelhas e acácias marcianas.

- Acácias azuis, vermelhas, lilás, verdes, róseas, Zinguindum?!




- Isso mesmo! Não é uma beleza? Você sabia que as acácias sempre foram consideradas plantas sagradas por diversos povos e culturas? Os egípcios, os hebreus, os hindus, os árabes, os incas. E os indígenas do nordeste brasileiro tinham na acácia jurema a sua árvore sagrada. Em Pernambuco, Helena, existe uma cidade que se chama Jurema justamente pela grande quantidade dessas árvores que ali se encontram. Eu diariamente tomo mel de abelha retirado da jurema. É uma maravilha, Helena! Não tem lactose, nem glúten. E é gostoso demais! Sabe quanto tempo uma acácia jurema consegue viver?

- Sei não. Vinte anos?

- Duzentos anos.

- Tudo isso?

- E como acontece com o girassol, da jurema se aproveita tudo: a raiz, as cascas, as folhas e as sementes usadas para banhos de limpeza e bebidas.

- Puxa vida, Zinguindum, eu quero viajar para Marte para encontrar as acácias coloridas!

- Quando você ficar maior, Helena, peça a sua mamãe para comprar o livro Iracema, é um romance do cearense José de Alencar. Iracema, a personagem central da estória, era uma menina muito bonita, assim como você. Filha do pajé e guardiã do suco da jurema. Esse suco era de cor esverdeada e possibilitava aos índios sonos tranquilos com sonhos muito agradáveis.

- Conta mais, Zinguindum.

- A jurema preta se desenvolve no sertão nordestino. E sabe do que ela é capaz? De crescer bastante e de contribuir para a regeneração de áreas que sofreram com a seca, criando condições para o desenvolvimento de outras plantas. A queda de suas folhas cobre o solo com uma camada que se decompõe formando um húmus – uma espécie de adubo – para o surgimento de outras vegetações.

- Que legal!

- Minha avó me ensinou uma canção da jurema que diz assim:

O mel da jurema é uma maravilha

Ele traz muita alegria para o povo cantador     

Com o seu gosto a tristeza vai-se embora

Pois a vida revigora pelo fogo do amor

 

- Que canção bonita, Zinguindum! Eu agora vou cantá-la todo dia embaixo do chuveiro.

- Depois das acácias, Helena, as abelhas nos levaram para outra paisagem indescritível. Eu quase não acreditei. Lá em Marte eu encontrei uma vegetação muito parecida com a cerejeira sakura.

- O que é sakura?

- Sakura é uma árvore muito apreciada no Japão. São cerejeiras que anunciam a chegada da primavera. O povo japonês celebra o florescimento das sakuras com muitas festas e piqueniques embaixo de suas copas. É um momento muito especial porque duram apenas 10 dias. O nome dessa festa é Hanami, que significa “contemplar as flores da sakura”. Durante o Hanami, os japoneses costumam acampar de manhã e ficar até o anoitecer.




- E o que mais, Zinguindum?

- A contemplação das flores da sakura também tem um simbolismo religioso. Antigamente os japoneses acreditavam na existência de deuses dentro das árvores e faziam oferendas na raiz para pedir uma boa colheita. Também foi considerada símbolo dos apaixonados porque as jovens enfeitavam seus cabelos com as flores de sakura para demonstrar que estavam buscando alguém para namorar. Quanta estacionou embaixo da copa de uma árvore e ficamos lá, flutuando, a contemplar a beleza daquela flora maravilhosa. Você não imagina como eu “desliguei” de tudo, a observar aquelas maravilhas.

- Zinguindum, essa sua viagem é emocionante, parece que eu também estava lá.

- Helena, agora eu vou ter de desligar, porque tenho um trabalho muito importante a fazer. Amanhã, depois do almoço, eu volto a ligar para continuarmos nossa conversa sobre a viagem. Pode ser?

- Pode. Obrigada, Zinguindum.

Mas Helena ficou pensando: “Qual seria o trabalho importante que Zinguindum iria fazer? Amanhã eu vou perguntar a ele”.

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