segunda-feira, 22 de maio de 2023

A PEDRA DE MARTE (Capítulo 05)

Alexandre Aragão de Albuquerque 


Capítulo 05

Helena estava muito feliz pela conversa mantida com Zinguindum. Tão feliz que, mais uma vez, quase se esqueceu de cuidar dos girassóis. Foi na cozinha, encheu os copinhos com água, começou a regar suas lindas mudas da plantinha do sol. À medida que regava, ela cantava:

Um girassol ilumina muita gente

Dois girassóis iluminam muito mais

Milhões de girassóis irradiando sua beleza

Quantas pessoas iluminarão pelos quintais?

 

Quando concluiu seu afazer, Helena resolveu escrever um email para sua prima.

- Lis, hoje conversei muito com Zinguindum e ele começou a me contar de sua viagem a Marte. Muito massa! Sabe, Lis, eu vou pedir ao papai e à mamãe para acompanhar Zinguindum na sua próxima viagem ao espaço. Vamos, Lis, você vai com a gente? Você pode levar sua tartaruguinha. E eu vou levar sementes de girassol para plantar lá em Marte para eles fazerem companhia às acácias e às cerejeiras coloridas de lá. Quem sabe nascem girassóis multicor? Amanhã ele vai me ligar novamente. Teve de desligar o telefone porque iria fazer algo muito importante. Estou muito curiosa para saber o que é. Um beijo, Lis.

Alguns minutos depois chegou a resposta de Lis:

- Nossa, Helena, Zinguindum viajou mesmo a Marte, não é? Eu também quero ir com você nessa viagem, mas não posso levar a tartaruguinha porque ela faz companhia para minha vovó. A mamãe disse que antes de eu ir para Marte, eu preciso arrumar o meu guarda-roupa e o meu material escolar. Tá certo, Helena? Quando eu conseguir me organizar, a mamãe me deixa ir para Marte com você e com o Zinguindum. Tchau, Helena!

Ao ler o email de Lis, Helena tomou um susto. Foi correndo para o quarto arrumar seu guarda-roupa e o seu material escolar. Afinal, se a mãe de Lis disse isso, podia ser que sua mamãe lhe dissesse o mesmo. Então ela precisava arrumar seu quarto e seu material escolar todos os dias para não correr o risco de ver sua viagem atravancada.

No dia seguinte, antes do almoço, a mamãe de Helena teve uma grata surpresa quando foi em seu quarto chama-la para almoçar:

- Nossa, o que aconteceu aqui? O quarto todo arrumado e o material escolar também? Que maravilha! Desse jeito, Helena, se o Zinguindum a convidar para viajar pelo espaço, eu vou acabar deixando-a ir. Parabéns!

Helena riu bastante, sem a mãe se aperceber. A sua decisão de cuidar melhor do seu quarto e de seus cadernos estava trazendo bons frutos. Era uma descoberta para ela: cuidar melhor das coisas e dos espaços onde se vive, faz bem. E Lis a ajudou bastante com aquela mensagem enviada.

Depois do almoço, pediu o celular do seu papai e sentou-se no sofá à espera do novo contato.

- Alô! É você, Zinguindum?

- Sim, Helena.

- Zinguindum, qual foi o trabalho importante que você fez ontem?

- Ontem?

- Sim. Você disse que ia desligar o telefone porque tinha um trabalho muito importante a fazer.

- Ah! Como você tem boa memória Helena. Eu vou te contar. Mas primeiro vamos fazer uma experiência. Eu vou pedir para você fechar os olhinhos e imaginar um imenso jardim repleto de flores, de plantinhas, de árvores. Ok? O que você está vendo, Helena?

- Eu estou vendo muitos girassóis, muitas acácias, muitas sakuras, muitas abelhas e muitas outras plantinhas. Um jardim muito grande e muito bonito.

- Isso! Um jardim com sua diversidade. Então, Helena, para mim, a vida é como um imenso jardim onde as pessoas são plantinhas especiais, cada uma com sua beleza e suas características.

- E o trabalho importante, Zinguindum?

- Além de viajar pelo espaço, Helena, outra atividade que eu gosto de realizar é tocar instrumentos musicais. Quando eu era pequenino, na sua idade, meu papai me deu de presente uma sanfona de oito baixos. Comecei a tocar aquela sanfoninha, achei-a muito bonita. Quando meu papai viu que eu me interessava, levou-me a uma escola de música para eu aprender melhor. E hoje, além de sanfona, eu também toco violão, flauta e bandolim.

- Nossa, você sabe fazer várias coisas!

- Algumas coisas, Helena. Eu penso que cada pessoa possui talentos, é só uma questão de seguir a luz que brilha dentro de si e se empenhar para deixar os talentos brotarem. Por exemplo, você possui um lindo talento de cuidar dos girassóis.

- Mas eu ainda não sei tocar flauta.

- Se você sentir esse desejo, peça a sua mamãe e ao seu papai para eles te levarem a uma escola de música.

- E o seu trabalho importante, Zinguindum?




- Bem, já faz algum tempo, durante algumas manhãs, eu participo de um trabalho solidário num local muito importante para mim. É uma casa que acolhe crianças do interior do meu estado, portadoras de câncer. Como suas famílias não têm recursos para hospedarem-se em hotéis, são acolhidas neste local durante o tratamento de seus filhos. Algumas pessoas, sabendo da existência dessa instituição, dedicam voluntariamente parte de seu tempo e seus talentos para ajudarem na recuperação da saúde das crianças. No meu caso, eu vou lá para tocar e cantar. Fazemos muitas brincadeiras e nos divertimos bastante. Então, ontem à tarde eu iria ensaiar algumas canções novas para poder apresenta-las bem para aquela garotada, por isso eu tive de desligar o telefone.

- Quando eu crescer, eu vou querer fazer um trabalho solidário igual ao seu, Zinguindum.

- Muito bem, Helena. A solidariedade é uma opção que fazemos em nossos voos aqui na Terra. Quando nos ajudamos mutuamente, a vida flutua melhor, como Quanta. O importante é começarmos nas pequenas ações do dia a dia. Ser solidário é um estilo de vida. Diante de cada pessoa podemos desenvolver nossa sensibilidade para buscar entender a melhor forma de nos relacionarmos com ela. Esse conhecimento mútuo nos faz mais humanos. Você sabe de onde vem a palavra humanos, Helena?

- Não. De onde, Zinguindum?

- Vem de húmus, significa “terra fértil”. Da mesma forma como você cuida dos girassóis, nós devemos cuidar do húmus que existe em nós, nos outros e entre nós. Esse cultivo pode fazer de nossa vida um jardim diversificado e muito bonito, igual àquele que você visualizou quando fechou seus olhinhos.

- Hoje você falou muita coisa valiosa. Agora eu vou desligar o telefone porque preciso fazer algo importante: cuidar dos meus girassóis. Amanhã a gente continua nossa conversa sobre Marte. Viu, Zinguindum?

- Viu, Helena.

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